Como ocorre a liquefação de barragens?

Em 25 de janeiro de 2019, o Brasil foi marcado por uma das mais graves tragédias socioambientais de sua história: a ruptura da Barragem Córrego do Feijão, em Brumadinho, que resultou na perda de 270 vidas. A compreensão dos mecanismos que levaram a esse evento é essencial não apenas para a memória coletiva, mas também para o aprimoramento das práticas de segurança e da responsabilização institucional.
Do ponto de vista geotécnico, a ruptura está associada a um processo conhecido como liquefação. Esse fenômeno ocorre quando um material granular, inicialmente estável, perde subitamente sua resistência mecânica e passa a se comportar como um fluido. Em barragens de rejeitos, esse risco é particularmente relevante, uma vez que tais estruturas são frequentemente compostas por sedimentos finos, como areia e silte, que apresentam baixa coesão. Nesses materiais, a estabilidade depende essencialmente do atrito entre os grãos.
Em condições de elevada saturação — comuns em períodos chuvosos — e com estrutura interna pouco compactada, os vazios entre os grãos ficam preenchidos por água. Se essa água não consegue se dissipar rapidamente, ocorre um aumento significativo da poropressão. Esse incremento reduz o contato efetivo entre as partículas sólidas, comprometendo o atrito que sustenta a estrutura. Como consequência, o material perde resistência ao cisalhamento e pode fluir abruptamente.
Esse mecanismo transforma, em questão de instantes, um depósito aparentemente sólido em uma massa viscosa e móvel, capaz de gerar fluxos de grande velocidade e alto poder destrutivo. Processos semelhantes foram observados na ruptura da barragem de Fundão, em Mariana, em 2015, evidenciando a recorrência e a gravidade desse tipo de instabilidade.
A liquefação, portanto, representa um dos principais desafios no gerenciamento de barragens de rejeitos, especialmente por sua natureza rápida e, muitas vezes, de difícil detecção prévia. A análise rigorosa das condições geotécnicas, o monitoramento contínuo e a adoção de práticas construtivas mais seguras são medidas indispensáveis para mitigar riscos e evitar a repetição de eventos dessa magnitude.
